Burocracias (parte I)

Posted Agosto 19, 2008 by F
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Já que resolvi focar o blog em Barcelona, e ainda não estou lá, aqui vão as impressões da preparação para ir.

Pra começar, Consulado Espanhol, localização: no meio do caos viário da Bernardino de Campos. Não a do Campo Belo, a do Paraíso! Sim, bem ali naquela bagunça de ruas, cruzamentos e carros, onde você não sabe mais o que é Paraíso e o que é Paulista.

O Consulado abre às 08h30 de segunda a sexta. Mas se você não chegar entre 07h e 08h, vai ser o último da fila. Sendo o último da fila você vai esperar em pé quase o mesmo número de horas que o povo que chegou bem antes, só que vai sair de lá muito mais tarde que eles. No térreo do prédio do Consulado tem uma galeriazinha de lojas e é lá que fica a fila. Uma preferencial e outra pra quem pode esperar. Você só vai subir o elevador se tiver que trocar documentos com o pessoal lá de cima.

Se você só precisa de uma informação, coisa simples mesmo, como por exemplo quais os documentos que precisa juntar pra obter o visto, não adianta ligar, vai pegar fila na Bernardino de Campos. E nunca, jamais, ligue no número de emergência se alguém não estiver infartando! Eu vi acontecer, quem atende é uma mulher muito, muito grande e muito brava que vai falar em Castellano com você o mais rápido que ela puder só pra você não entender nada e vai ficar puta com você! Eu estava sendo atendida por ela quando aconteceu, e pode ter certeza de que ela sabe falar Português muito claramente, usando até mesmo gírias e expressões típicas brasileiras.

Resolveu não pegar a fila e olhar no site quais são os documentos? Bom, se você encontrar avise São Paulo inteira, por favor, coloca um anúncio no Google ou algo assim.

Seu amigo disse que no ano passado juntou tais e tais documentos pro visto, te mostrando a lista completa? Esquece, esse ano tudo pode ter mudado, é melhor pegar a lista nova e quem vai te dar essa lista é a mesma mulher que atende o telefone. Só que quando ela está lá embaixo no térreo atendendo as pessoas é super simpática, cheia de sorrisos e piadas e fala em Português com você. Quem não fala em Português de jeito nenhum é o cara que fica lá em cima dando senhas.

Start spreadin’ the news, I’m leaving today

Posted Agosto 15, 2008 by F
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Eu sempre fui a pessoa que fica. Com o tempo aprendi a lidar com esse tipo de emoção, adiquiri uma certa prática. Dentro do possível, é claro, sentimentos são maravilhosamente imprevisíveis em sua forma e intensidade. E a tristeza da despedida é absurdamente dolorida.

A melhor amiga irmã do coração foi morar em Fortaleza, lá no topo do país, longe longe do querido sudeste. Eu fiquei.
Aquele rapaz por quem me apaixonei perdidamente à primeira vista literalmente, foi morar nos Estados Unidos. Eu fiquei.
Aquele moço com quem descobri o amor foi morar cada hora num cantinho diferente do mundo. Eu fiquei.

Agora quem vai sou eu, e com isso não sei lidar nem um pouco. É claro que pode ser que eu volte. Quem vai nem sempre tem certeza se volta ou não e quando.

Deixo no Brasil família e muitos amigos que amo. Os outros amores ficaram pra trás, se foram na época que quiseram ir, carregando meu coração nas mãos. Ficou só aquela lembrança gostosa… deles já me despedi.

Não sei ir. Me corta o coração ouvir pessoas queridas dizendo ‘todo mundo tá indo embora’. Dói pensar em ficar longe de todo mundo, mas dói mais ainda pensar que o tempo pode se tornar uma grande borracha de sentimentos. Gostaria muito mesmo que ninguém deixasse isso acontecer. Nem eu nem vocês que eu tanto amo.

Uma amiga uma vez me disse que o verdadeiro amor nunca deixa de existir.
Eu ainda não tenho idade suficiente pra comprovar isso (se é que depende de idade), mas gosto de acreditar. Mesmo sendo cética do jeito que sou.

É estranho ir. São sentimentos que não consigo identificar.

Há pouco tempo meu maior desejo era voltar a morar em São Paulo, no meu próprio apartamento, com meu emprego e tudo mais. Eu já estava até com tudo planejado e caminhando.
Agora estou indo morar em Barcelona e poderei riscar um sonho da minha lista.
Engraçado como um simples momento impulsivo pode mudar sua vida…

Acho que

Posted Julho 31, 2008 by F
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a ansiedade é o único sentimento que assopra e aperta o peito ao mesmo tempo

 
 

ou será que isso é angústia?

CDs

Posted Julho 29, 2008 by F
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Abrir o encarte de um cd é como pegar um cromo na mão. Se você puser o dedo, fica marcado e estraga a foto.

Pesquisar, desejar, comprar, levar pra casa. Fases do ritual de ouvir música. Senta-se em algum lugar - sozinho, senão não tem tanta graça. É um ritual único pra cada disco, e individual.

O plástico lacra, justo como meia-calça, a ansiedade de encontrar muitas páginas e músicas nada menos que ‘do caralho’.

A maior decepção do mundo é um encarte mal feito ou sem informação/fotos. Eu, particularmente, gosto de segurar a ansiedade. Como diz Tom Cruise em Vanilla Sky - a tão famosa refilmagem norte-americana de Abra Los Ojos - adiar o prazer para que ele seja maior. Então a primeira coisa que faço depois do imenso prazer infantil de rasgar a embalagem é levantar o CD pra ver que foto há embaixo (depois de ter feito isso com um CD do Pearl Jam anos atrás e encontrado uma foto onde estava escrito, na palma de uma mão, ‘5 against 1′, a curiosidade sobre o que há embaixo do CD sempre me consome). Mas isso só foi possível depois que começaram a fabricar caixinhas com a parte de baixo transparente, antes era preto, vcs lembram? (isso foi mesmo cronológico ou é impressão da minha cabeça?)

Agora é a vez do encarte. Lindo e doce encarte. Muito cuidado nos dedos pra não engordurar. E finalmente o prazer dos prazeres, as músicas, da primeira à última, sem interrupções, com fones ou caixas de som perfeitos, no volume ideal, sentindo os pequenos detalhes de cada acorde em cada instrumento.

Um dia ainda compro uma pickup (só pra não dizer vitrola) e descubro o prazer de comprar um vinil e montar minha própria coleção.

Não consegui dormir e fiquei pensando bobagens

Posted Julho 15, 2008 by F
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São tantos os caminhos do meu pulso às pontas dos dedos. As linhas se entrelaçam de um jeito que, mesmo terminando de repente, é possível continuar por outra. E elas variam conforme eu mexo as mãos! Entre o fim da palma e o começo dos dedos há um obstáculo. Um labirinto minucioso. Depois dele ainda tem outros dois, mas com grau de dificuldade menor. Aí é só superar algumas curvas e pronto! A ponta dos dedos finalmente.
Acho que a vida é assim…

O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

Posted Julho 15, 2008 by F
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João Guimarães Rosa

Pedras

Posted Julho 8, 2008 by F
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Pé ante pé, passa pelas pedras e as recolhe. Guarda todas no bolso e segue seu caminho pelas encruzilhadas. As pedras chacoalham e ela fica ouvindo aquele barulhinho chamando sua atenção, não a deixando esquecer-se. Mas ela não quer esquecer.

Pé ante pé passou por uma pedrinha tão pequena e inesperada, recolheu e jogou com todas as outras. Sentiu todas chacoalharem ao mesmo tempo e o bolso rasgar. Todas as pedras tilintando pelo chão de terra. Não poderia continuar enquanto não as recolhesse.

Olhou para todas ali em suas mãos, não faziam mais barulho. Pontiagudas, agora rasgavam sua pele. Sentiu que ao seu redor tudo desaparecia, não havia mais pessoas passando pelos outros caminhos, o vazio consumia tudo ao redor. Suas pernas não mais mexiam, lágrimas escorriam de dor transformando-se em chuva. Seu corpo caiu no chão enlameado sem poder evitar que se misturasse com a água e a terra. Começou a afundar sempre olhando para as pedras que a machucavam, lembrando porque havia recolhido cada uma delas. Os motivos se misturavam e a confundiam. As pedras pesadas, o corpo enfraquecido afundado em seu próprio mundo.

Estancou alguns cortes, fazendo cessar a chuva. Limpou-se da lama e viu que o céu continuava cinza, com o vento batendo forte em seu corpo, mas isso não importava naquele momento. Quebrou algumas pedras com as mãos e devolveu os grãos de areia ao vento, que iria derrubá-los de volta ao chão. As que restaram, guardou novamente no bolso e continuou caminhando até a próxima pedra.

 

Aimee Mann - Save Me

Amargo

Posted Julho 4, 2008 by F
Categories: Cotidiano

Laerte

Laerte

Nossa, você viu, a dona Ruth morreu! Que pena… Eu vi um programa na Cultura com ela, ela deu uma entrevista, nossa, que mulher! Um conhecimento tão vasto do mundo, das pessoas, projetos sociais bons. É uma pena, viu, perder pessoas assim, pessoas como ela não deveriam morrer tão cedo. Que pena…

É, mãe, as pessoas morrem. Acontece.

Sumir

Posted Junho 26, 2008 by F
Categories: Feelings now and then...

Um carro, uma estrada, nenhum rumo… ir, se perder, não voltar…

Eufemismo ou não, esse é o desejo

 

 

Ideologia

Posted Junho 23, 2008 by F
Categories: Parábolas

Arranjei um emprego pra você. São trezentos reais por mês e você vai trabalhar como…

O quê? Trezentos reais? Quem é o porco capitalista que tá me oferecendo isso? Que absurdo, isso é exploração de mão-de-obra barata! Eu tenho meus princípios! Passo meus dias lutando por melhores condições trabalhistas, pelas opções de escolhas de estudos para todos, o mínimo que todo ser humano deveria ganhar é um salário mínimo! E todo salário minimo tem de ser suficiente para viver bem, e não para lutar pela sobrevivência porque o dinheiro não é suficiente pras compras no supermercado!

Você está desempregada há seis anos já…

E eu com isso? Vou continuar lutando pela classe trabalhadora até morrer de fome! Eu luto pela revolução socialista, pelo meio-ambiente, por dignidade, pela não-ignorância… não posso aceitar menos de um salário mínimo como salário, nem pra mim nem pra ninguém!

Tá bom. O que vamos jantar hoje?

Não sei, não tenho dinheiro…